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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Era o templo de Salomão a habitação de Deus?


"O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso?"  (Atos 7 : 49)

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas o número de novos ministérios denominacionais conhecido como igrejas tem multiplicado grandemente. Não obstante, também tem havido uma grande evasão de crentes das mais variadas denominações religiosas, os quais são por estas chamados de “desigrejados”. Uns tem saído dessas igrejas pelos mais variados motivos, sendo o principal deles a decepção com as lideranças, enquanto que outros são meramente excluídos, por representarem ameaça a essas instituições, em virtude do conhecimento adquirido das Escrituras. Contudo, esse fenômeno chamado “desigrejado” tem de certa forma, contribuído para o entendimento que é possível servir a Deus e manter a comunhão sem a necessidade de se estar afiliada a alguma organização religiosa. E isso também tem servido para quebrar o mito de que os inúmeros templos levantados por essas denominações sejam “casas de Deus”. Neste artigo estarei mostrando que o grande Deus, criador do universo e de tudo o que nele existe, nunca desejou ficar confinado a um espaço físico construído pelas mãos dos homens. Lugares estes chamados de templos que são mistificados por aquele que os edificam como “casa de Deus”.

COSTUMES CANANEUS ADOTADOS PELOS ISRAELITAS

A ideia de construir uma casa para Deus surgiu primeiro no coração de Jacó quando fez um voto ao Senhor (Gênesis 28.22). Porque Jacó prometeu isso, se ele não conhecia ainda o Deus de seus pais Abraão e Isaque e muito menos havia noticia de algum santuário feito para Deus? É simples! Jacó residia nas terras de Canaã e que era habitada por povos que cultuavam falsos deuses, feitos pelas mãos dos homens. E Jacó, mesmo sendo escolhido por Deus, não se desvencilhou tão cedo desse costume pagão, onde até mesmo sua família, sob a influência do paganismo cananeu, servia a deuses estranhos (Gênesis 35.2-4). Para o povo cananeu era comum construírem templos para seus deuses, onde também lhes ofereciam sacrifícios. Muito tempo depois, o desejo de construir uma casa para surgiu no coração do grande monarca de Israel, quando percebeu que ele habitava numa linda casa de cedro importado, enquanto a arca do Senhor habitava em tendas (1Crônicas 17.1). Mas teria o grande Deus pedido que seu povo construísse uma habitação para Ele?

Quando o Senhor tirou o seu povo Israel do Egito para introduzi-los em Canaã, deu a seguinte ordem: "E não andeis nos costumes das nações que eu expulso de diante de vós, porque fizeram todas estas coisas; portanto fui enfadado deles." (Levítico 20.23). Muito embora o Senhor tivesse feito tal pedido, vemos que Ele não foi obedecido. Ao tomar posse da terra prometida, depois da morte de Josué, o povo de Israel acabou por andar nos costumes cananeus, seguindo a outros deuses que o Senhor havia terminantemente proibido e por isso sofreu a reprovação de Deus por muitos anos até o cativeiro babilônico, onde foram curados da idolatria. Mas, dois dos vários costumes cananeus prevaleceram em Israel, como veremos a seguir, muito embora fosse contrária a vontade de Deus.

GOVERNO MONÁRQUICO, UM COSTUME CANANEU.

O primeiro costume cananeu invejado pelos israelitas foi o sistema de governo monárquico com a escolha de um rei. Todos os povos de Canaã possuíam um rei, assim como em cada cidade hoje há um prefeito. Diferente de outras nações, Israel não tinha rei, pois Deus era o soberano sobre seu povo. Mas Israel invejou os cananeus e desejou também ter um rei. “E disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações” (1Samuel 8.5). É claro que a má administração dos filhos de Samuel a frente do povo, contribuiu para o surgimento desse desejo. Mas Samuel não se agradou da ideia e consultou a Deus. No entanto, Ele atendeu o desejo do coração do povo, como diz: “E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1Samuel 8.7). Assim, o costume cananeu de ter um rei que dominasse sobre o povo foi introduzido no meio do povo escolhido de Israel.

TEMPLOS RELIGIOSOS ERAM COSTUMES DOS CANANEUS

O segundo costume que prevaleceu em Israel e que também tem tido grande influência entre os cristãos, foi a construção de templos. As escrituras claramente mostram que Deus nunca desejou habitar em templos feitos pelas mãos dos homens. Pela boca do profeta Isaias, o Senhor assim falou: "Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso?"  (Isaías 66.1). Essa foi a mesma palavra citada por Estevão em sua defesa e que causou a indignação dos religiosos e que resultou na sua morte por apedrejamento (Atos 7.48-60). Mas, se Deus nunca desejou isso, o que dizer da construção do templo por Salomão e que foi o marco na vida do povo judeu como o único local de adoração?

DEUS NÃO PEDIU A CONSTRUÇÃO DESSE TEMPLO

Como foi dito acima, o desejo de construir um templo para Deus surgiu no coração de Daví. Quando Daví propôs fazer uma casa para Deus, recebeu de imediato a aprovação do seu profeta e conselheiro Natã. “Disse o rei ao profeta Natã: Eis que eu moro em casa de cedro, e a arca de Deus mora dentro de cortinas. E disse Natã ao rei: Vai, e faze tudo quanto está no teu coração; porque o SENHOR é contigo” (2Samuel 7.2,3). Natã como profeta não teve o cuidado de consultar ao Senhor e, para agradar ao rei Daví, logo apoiou sua ideia e até disse que Deus seria com ele. Mas, na mesma noite o Senhor fala com Natã expressando a sua real vontade. “Porém sucedeu naquela mesma noite, que a palavra do SENHOR veio a Natã, dizendo: Vai, e dize a meu servo Davi: Assim diz o SENHOR: Edificar-me-ás tu uma casa para minha habitação? Porque em casa nenhuma habitei desde o dia em que fiz subir os filhos de Israel do Egito até ao dia de hoje; mas andei em tenda e em tabernáculo” (2Samuel 7.4-6). Pelos textos, vê-se claramente que Deus não desejou isso. O Senhor ainda diz para Natã que Daví não construiria uma casa para Ele, mas sim, um de seus descendentes. Qual seria esse descendente? Será que o Senhor estaria se referindo a Salomão que substituiria Daví no trono de Isarel? Daví, como homem pensou que sim (1Crônicas 28.15), e também o próprio Salomão achou que era ele (2Crônicas 6.8,9). Mas, se analisarmos cuidadosamente o texto de 2Samuel 7.12-17, vamos entender que o Senhor não estava falando de Salomão como o descendente de Daví que lhe edificaria uma casa.

“12 Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino.
13 Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre.
14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens.
15 Mas a minha benignidade não se apartará dele; como a tirei de Saul, a quem tirei de diante de ti.
16 Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre.
17 Conforme a todas estas palavras, e conforme a toda esta visão, assim falou Natã a Davi.” (2Samuel 7.12-17 ACF).

Observem que em nenhum momento o onisciente Deus falou que o descendente de Daví que lhe edificaria casa seria seu filho Salomão. No verso 13 o Senhor promete confirmar o trono desse descendente para sempre. Ora, todos sabem que Salomão no apogeu de seu reino pecou desobedecendo a Deus, se unindo a mulheres pagãs e se entregou a idolatria provocando a ira do Senhor. Em sua indignação, Deus promete rasgar o seu reino, como diz: “Assim disse o SENHOR a Salomão: Pois que houve isto em ti, que não guardaste a minha aliança e os meus estatutos que te mandei, certamente rasgarei de ti este reino, e o darei a teu servo” (1Reis 11.11 ACF). Por causa do pecado de Salomão que transgrediu contra o Senhor, o reino de Israel foi dividido em duas tribos (Norte e Sul). Logo, Salomão não poderia ser o descendente pelo qual Deus prometeu a Daví que seria o que lhe edificaria uma habitação, cujo reino seria eterno.

CRISTO, O DESCENDENTE DE DAVI E NÃO SALOMÃO

Quando lemos a genealogia de Cristo, vemos que este veio da linhagem de Davi, passando por Salomão “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão... E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias. E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa... De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a Babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a Babilônia até Cristo, catorze gerações” (Mateus 1.1;6,7;17). Assim, a promessa de Deus a Daví dizia respeito a Jesus e não a Salomão. Eis a razão pela qual Jesus era reconhecido entre os pobres, necessitados e até estrangeiros como o “Filho de Daví” (Mateus 9.27;12.23;15.22).

A IMPORTANCIA DO TEMPLO DE SALOMÃO.

Deus não pediu a construção desse templo para a sua habitação, no entanto Ele consentiu sua construção e até aceitou que seu Nome alí habitasse por um motivo especial, como segue:

O segundo livro das Crônicas nos mostra Salomão terminando e consagrando essa casa para Deus. Ao finalizar as obras de seu palácio e do templo, Salomão leva para este o ouro, a prata e os objetos de valor que Daví seu pai havia consagrado para aquela casa. Depois ele convoca os anciãos e os líderes tribais para conduzirem a arca do concerto até o lugar para ela preparada no templo. Uma grande festa acontece, onde um número incontável de bois e carneiros é sacrificado (2Crônicas 5.1-6).  Salomão faz um discurso e lembra ao povo o desejo de seu pai Daví em construir aquele templo e o motivo da não permissão de Deus, citando as Palavras que Natã, da parte de Deus entregou a Daví que disse que a descendência dele é que lhe faria uma habitação (2Crônicas 6.1-9). Salomão então sobe a plataforma que fez e ora a Deus. Na sua oração, Salomão diz algo interessante, que nos faz entender o motivo de Deus aceitar aquele templo como local de adoração. Leiamos uma parte dessa oração em 2Crônicas 7-18-21:

“Mas, na verdade, habitará Deus com os homens na terra? Eis que os céus, e o céu dos céus, não te podem conter, quanto menos esta casa que tenho edificado? Atende, pois, à oração do teu servo, e à sua súplica, ó SENHOR meu Deus; para ouvires o clamor, e a oração, que o teu servo faz perante ti.  Que os teus olhos estejam dia e noite abertos sobre este lugar, de que disseste que ali porias o teu nome; para ouvires a oração que o teu servo orar neste lugar.  Ouve, pois, as súplicas do teu servo, e do teu povo Israel, que fizerem neste lugar; e ouve tu do lugar da tua habitação, desde os céus; ouve pois, e perdoa”.

A oração de Salomão continua no restante do capítulo sete, e por várias vezes, ele menciona os céus como o lugar da habitação de Deus e não aquele templo. Mas é somente quando Salomão termina a oração é que Deus manda a sua glória em forma de fogo que consumiu os holocaustos e encheu a casa de modo que nem mesmo os sacerdotes puderam alí entrar (2Crônicas 7.1,2).

Passado esse dia, a noite o Senhor aparece a Salomão e lhe fala o motivo de ter aceito aquela casa que lhe foi consagrada. “E o SENHOR apareceu de noite a Salomão, e disse-lhe: Ouvi a tua oração, e escolhi para mim este lugar para casa de sacrifício” (2Crônicas 7.12). Sim, aquela casa seria uma casa de sacrifícios, pois, somente mediante esses holocaustos é que o povo recebia a expiação de seus pecados. Por essa razão que o Senhor falou assim: “E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra. Agora estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos à oração deste lugar” (2Crônicas 7.14,15). Assim, todo povo de Deus (hebreus) precisava ir aquele lugar levar seus sacrifícios, orar e suplicar o favor de Deus. E isso durou até a vinda do Messias. Por isso, no cumprimento da Lei, Jesus demonstrou zelo por esta casa ao expulsar os cambistas que por permissão dos sacerdotes profanavam aquele lugar, transformando-o em casa de negócios. Nesta oportunidade Jesus mostrou que Ele era o verdadeiro templo da habitação de Deus, mas os religiosos não compreenderam o ensinamento de Jesus, como muitos até hoje não compreendem. (João 2.19-21). E por esta razão, os religiosos continuam construindo templos e os chamando de casa de Deus, sendo que Deus não habita nesses lugares (Atos 7.48 ; 17.24). O único templo aprovado por Deus foi o de Salomão, mas com a condição de Salomão e o povo permanecerem fiel a Lei de Moisés, caso contrário, o Senhor lhes arrancaria daquela terra, os lançaria fora de Sua presença e faria daquela casa um objeto de zombaria para todos os povos (2Crônicas 7.12-22)

CONCLUSÃO

O templo erguido por Salomão não foi a casa da habitação de Deus, conforme foi prometida a Daví. Deus não habitou naquela casa, apenas se fazia presente e respondia as orações, quando invocado naquele lugar, visto ele estar edificado em Jerusalém, cidade que Deus escolheu para fazer habitar o Seu Nome.  (Deuteronômio 12.11). E como vimos, aquele templo era uma casa de sacrifícios. Mas na instituição da Nova Aliança por Cristo, que cumpriu todas as exigências da lei, como sacrifícios, holocaustos e oblações, o templo perdeu sua utilidade. Por isto, Jesus predisse que dele não ficaria desta casa pedra sobre pedra que não fosse derribada (Mateus 24.2). E isso aconteceu no ano 70 dC, e desde então nenhum outro mais foi erguido. Se Deus de fato habitasse alí, jamais permitiria que ele fosse profanado ou destruído.

No próximo artigo, falarei da Casa de Deus levantada pelo descendente de Daví – Jesus.
Em cristo,

Reginaldo Barbosa
Santa Bárbara do Pará

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A trágica morte de Coré, Datã, Abirão e os 250 líderes de Israel


"E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens." (Números 16 : 32).

INTRODUÇÃO

Muitos ensinam assim nas igrejas
A maneira como Coré, Datã e Abirão morreram é conhecida por todos os crentes. A terra se abriu e engoliu vivos esses homens com suas famílias e tudo o que lhes pertenciam. Esta tragédia sem igual na história do povo de Deus tem sido largamente usada no meio cristão como uma maneira de impor medo e, de certa forma terror nos crentes, com o intuito de estes não questionarem a atitude de alguns ministros que se autoproclamam “ungidos”. Isto porque, acreditam e ensinam que o motivo da morte desses homens com suas famílias, se deu pelo motivo de estes se oporem a liderança de Moisés e Arão. Teria de fato sido este o verdadeiro motivo pelo qual a ira de Deus veio de forma excepcional sobre estes homens exterminando-os com tudo o que tinham? O que ensina a bíblia?

QUEM ERA CORÉ

Coré, com o apoio de Datã e Abirão liderou um grupo de duzentos e cinquenta homens em oposição a liderança de Moisés e Arão. Coré era levita, do clã de Coate, um dos três filhos de Levi (Gênesis 46.11 ; Números 3.17). Os “coatitas” como eram assim chamados, eram os responsáveis pelas coisas santíssimas do santuário (Números 4.4). Como levita, Coré era ministro no santuário auxiliando os sacerdotes nos serviços do santuário. Sendo da tribo de Levi, Coré deveria auxiliar o sacerdote e isto deveria ser para ele uma honra, pois Deus escolheu os levitas para sí em lugar de todos os primogênitos em Israel. "E eu, eis que tenho tomado os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo o primogênito, que abre a madre, entre os filhos de Israel; e os levitas serão meus." (Números 3.12). Mas Coré tinha desejo de poder e de dominar sobre o povo, assim como agem os nicolaítas na igreja atualmente. Isso foi a sua ruína e de seus companheiros.

O MOTIVO DA INSSURREIÇÃO DE CORÉ E SEU BANDO

É inegável que Coré e seus aliados tenham de fato se levantado contra a liderança de Moisés e Arão. Porém, não foi essa a única razão pela qual a ira de Deus se derramou contra aqueles homens matando-os de forma incomum, como veremos mais a frente. Coré que era o líder do grupo ambicionava a posição de sacerdote em Israel. Pelo tempo em que passaram no Egito, Coré aprendeu que ser sacerdote era promissor, pois naquela terra, os sacerdotes gozavam de prestígios políticos, sendo protegidos pelo faraó e também eram proprietários de grandes áreas de terra, o que lhes proporcionava grandes riquezas (Gênesis 47.22-26). O que Coré, não sabia é que em Israel, o papel dos sacerdotes seria totalmente diferente. No meio do povo de Deus o sacerdote deveria servir e não ser servido. Somente depois da tragédia que lhe custou a vida é que Deus determinou em Lei que os sacerdotes levitas não teriam nenhum tipo de beneficio material. "Disse também o SENHOR a Arão: Na sua terra herança nenhuma terás, e no meio deles, nenhuma parte terás; eu sou a tua parte e a tua herança no meio dos filhos de Israel."  (Números 18.20). Assim, Coré ambicionou o sacerdócio, intentando obter vantagens e prestigio como acontecia entre os sacerdotes no Egito. Ele não levou em consideração que a escolha de Moisés como líder e Arão seu irmão como sacerdote em Israel partiu do próprio Deus. Moisés e Arão não foram escolhidos por um conclave, um concílio ou eleição convencional. Por isso, murmurar contra esses homens, era o mesmo que murmurar contra o próprio Deus que os escolheu (Êxodo 16.7).

A ATITUDE DE MOISÉS.

Ao perceber a maléfica intenção de Coré, Moisés prostrou-se na presença de Deus, como sempre costumava fazer quando murmuravam contra ele (Números 16.4). Certamente orientado por Deus que sempre falava com ele, Moisés propôs a Coré e sua congregação aliada apresentarem-se perante Deus portando cada um incensários. Esta seria a maneira de Deus mostrar aqueles homens insubordinados quem era o escolhido de Deus (Números 16.6,7). Como um autentico líder, que se preocupa com seus liderados, Moisés não deixa de advertir Coré, sabendo do mal que ele estava atraindo para sí, sua família  e seus companheiros.

“Disse mais Moisés a Coré: Ouvi agora, filhos de Levi: Porventura pouco para vós é que o Deus de Israel vos tenha separado da congregação de Israel, para vos fazer chegar a si, e administrar o ministério do tabernáculo do SENHOR e estar perante a congregação para ministrar-lhe; E te fez chegar, e todos os teus irmãos, os filhos de Levi, contigo? ainda também procurais o sacerdócio?” (Números 16.8-10).

Ao desejar o sacerdócio, Coré estava de fato se levantando contra e Arão e também contra o Senhor, e não propriamente contra Moisés, o líder do povo de Israel. “Assim tu e todo o teu grupo estais contra o SENHOR; e Arão, quem é ele, que murmureis contra ele?” (Números 16.11). Arão como sacerdote ungido era o único que podia mediar as causas dos homens para com Deus, queimando incenso e oferecendo oblações e holocaustos sobre o altar. O sacerdote era o mesmo que príncipe no arraial dos santos. Qualquer falta de respeito contra o sacerdote, era uma afronta ao próprio Deus. "A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás." (Êxodo 22.28). Porém, conforme a ordem de Deus, somente Arão e posteriormente os seus descendentes diretos é que poderiam assumir o sacerdócio em Israel. “E vestirás a Arão as vestes santas, e o ungirás, e o santificarás, para que me administre o sacerdócio. Também farás chegar a seus filhos, e lhes vestirás as túnicas, E os ungirás como ungiste a seu pai, para que me administrem o sacerdócio, e a sua unção lhes será por sacerdócio perpétuo nas suas gerações” (Êxodo 40.13-15). Nenhum outro, embora fosse levita, mas não sendo da família de Arão poderia ser sacerdote. Por isso repito, levantar-se contra o sacerdote da linhagem de Arão, era o mesmo que opor-se a soberania de Deus.

De igual modo, assim como admoestou Coré, Moisés mandou chamar Datã e Abirão a sua presença para também aconselhá-los, mas estes não quiseram vir. E ainda protestaram contra Moisés, acusando-o de querer se fazer príncipe sobre eles (Números 16.13,14). Isto causou o furor de Moisés que orou ao Senhor pedindo que não recebesse a oferta de suas mãos (Números 16.15).

A MORTE DE CORÉ E SEU GRUPO.

Sabendo que não poderia mudar a opinião daqueles homens, Moisés pede para que eles se apresentem a porta do santuário trazendo incensários com incensos. Eles assim o fizeram. “Tomaram, pois, cada um o seu incensário, e neles puseram fogo, e neles deitaram incenso, e se puseram perante a porta da tenda da congregação com Moisés e Arão” (Números 16.18). Imediatamente a ira de Deus se manifestou e o Senhor disse a Moisés. “Apartai-vos do meio desta congregação, e os consumirei num momento” (Números 16.21). É importante frisar que não apenas Coré e seu grupo seriam exterminados, mas toda a congregação israelita. Isto mostra a gravidade dos fatos. Porém, Moisés e Arão humilharam-se diante da face de Deus e intercederam em favor da congregação de Israel. O Senhor então mandou que Moisés pedisse ao povo que se afastassem de perto da tenda de Coré, Datã e Abirão. Assim Moisés e Arão fizeram em obediência a Deus. Moisés então salientou que o que iria acontecer com aquelas famílias era um sinal que eles haviam irritado o Senhor (Números 16.28-30). Então, terra se abriu e vivos desceram ao abismo Coré, Datã, Abirão e tudo o que lhes pertencia. Em seguida, saiu fogo do altar e consumiu os duzentos e cinquentas homens de posição que se aliaram com Coré (Números 16.35).

O MOTIVO DA TRAGÉDIA

Se Coré e seu bando apenas tivessem questionado somente a liderança de Moisés e Arão, certamente eles sofreriam algum tipo de penalidade, como maneira de reparar seu erro. Talvez até morressem por alguma praga como aconteceu com alguns que também se rebelaram um dia após essa tragédia (Números 16.41-50). Talvez até mesmo fossem perdoados mediante a intercessão de Moisés que era homem mui manso e por muitas vezes pediu pelo povo. “Perdoa, pois, a iniqüidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia; e como também perdoaste a este povo desde a terra do Egito até aqui. E disse o SENHOR: Conforme à tua palavra lhe perdoei” (Números 14.19,20). Mas este não foi o caso de Coré e seu bando. Eles foram mais além e irritaram o Senhor. Mas de que maneira eles irritaram o Senhor? Queimando incenso sem serem santificados ou consagrados para este fim. Apenas o sacerdote descendente de Arão deveria queimar incenso ao Senhor. Quem não fosse da família de Arão morreria por essa ousadia. "Mas a Arão e a seus filhos ordenarás que guardem o seu sacerdócio, e o estranho que se chegar morrerá."  (Números 3.10).
É bom lembrar que da mesma maneira procedeu também Uzias, rei de Judá, muito tempo mais tarde, quando se exaltou em seu coração, transgredindo contra o Senhor ao queimar incenso, não sendo ele sacerdote e nem descendente de Arão.

“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso. Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, e com ele oitenta sacerdotes do SENHOR, homens valentes.  E resistiram ao rei Uzias, e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso; sai do santuário, porque transgrediste; e não será isto para honra tua da parte do SENHOR Deus.  Então Uzias se indignou; e tinha o incensário na sua mão para queimar incenso. Indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu à testa perante os sacerdotes, na casa do SENHOR, junto ao altar do incenso” (2Crônicas 26.16-19).

E a recompensa do rei Uzias, foi vexatória adquirindo a pior enfermidade do seu tempo que era a lepra. E assim morreu o ungido rei de Judá.

CONCLUSÃO

Como vimos, Coré, Datã e Abirão não morreram por questionar a autoridade de Moisés e Arão, como tem sido ensinado. Ressalto que eles morreram de maneira excepcional por irritarem ao Senhor, queimando incenso, o que não lhes era permitido fazer, pois somente Arão e seus filhos foram ungidos para esse fim. Não é demais advertir que aqueles que utilizam esse fato ocorrido com Coré, Datã e Abirão, com o fim de se blindarem e não terem suas ações questionadas pelos fiéis; estes é que estão irritando a Deus, por deturparem Sua Palavra, ensinando o que não convém. Graças a Deus que vivemos o tempo da graça, senão muitos já teriam sido extirpados. Mas é conveniente lembrar que o julgamento começará pela casa de Deus que é a igreja (1Pedro 4.17); principalmente aos que ocupam a posição de mestres entre o povo do Senhor (Tiago 3.1). E também, no atual tempo da graça, inaugurada pelo sangue do Cordeiro de Deus, não existem sacerdotes ungidos e muito menos homens com autoridade para dominar sobre o rebanho de Deus (igreja), como foram Moisés e Arão sobre Israel. Todos nós, os que cremos, somos sacerdotes juntos com Cristo, nosso sumo sacerdote. E como sacerdotes, todos podemos queimar incenso a Deus, pois o incenso são as nossas orações (Apocalipse 5.8).

Em Cristo,

Reginaldo Barbosa
Santa Bárbara do Pará.        
                                                                                                                                      

Fontes: Bíblia Sagrada Almeida Corrigida Fiel (ACF)

sábado, 10 de setembro de 2016

A Contribuição no Novo Testamento e seu objetivo


"Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria." (2Coríntios 9 . 7).

O Novo Testamento não ensina sobre o dever do crente dizimar e nem ofertar. Fomos acostumados a chamar a contribuição de oferta, assim como chamamos de dízimo aos 10% das rendas que fomos ensinados a dar nas igrejas. Em estudos anteriores, enfatizo que o ato de dizimar era um rito inerente a Lei mosaica que teve seu cabal cumprimento na cruz, onde Jesus, com sua morte pagou todas as nossas dívidas que a Lei e o pecado exigiam, inclusive a morte (Romanos 6. 23 ;Colossenses 2 . 14). E quanto a oferta, o Novo Testamento também não ensina sobre o crente ofertar. Nas poucas vezes que encontramos o termo oferta nos escritos do Novo Testamento, algumas delas são aludindo aos ritos praticados quando o Antigo Testamento ainda vigorava (Mateus 2. 11 ; 8 . 4 ; 15 . 5 ; Lucas 2 . 24 ; 21 . 1 – 4); enquanto que outras estão referindo-se a Cristo, a verdadeira oferta (Romanos 15 . 16 ; Efésios 5 . 2 ; Hebreus 5 . 3 ; 10 . 5 – 8). O ato de ofertar, bem como a própria oferta na bíblia estava relacionado a sacrifícios e, diferente do dízimo, onde os necessitados estavam isentos de praticar, a oferta era obrigatória a todos os hebreus, como ordenava a Lei. Como exemplo disso, temos a ação da viúva pobre que no cumprimento da Lei, depositou no gazofilácio do templo as duas únicas moedas que eram todo o seu sustento (Lucas 21 . 1 – 4). Jesus sabia que a pobre viúva dependia daquelas moedas, e mesmo sendo justo, não a impediu de fazer aquele rito, pois Ele mesmo estava no cumprimento da Lei (Mateus 5 . 17). Porém, cumprindo a Lei na Sua morte, Cristo desobrigou-nos de todo os ritos desta. "Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste;" (Hebreus 10 . 5).

A FINALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO NO NOVO TESTAMENTO

Mas, se o Novo Testamento não ensina a dizimar e nem a ofertar, ensina o que? Ensina a contribuir! Mas o contribuir na Nova Aliança não é por força de lei, nem por obrigação como era a oferta levítica e muito menos pela imposição de porcentagem como era o dizimo. Muitos teólogos tentam associar a contribuição na graça com o ato de ofertar e dizimar como era na Lei. Isto como uma manobra para incentivar os cristãos a investirem em construção de templos e suas manutenções, e também a pagar os salários daqueles que ministram nesses. Mas Paulo, o imitador de Cristo e apóstolo dos gentios, ensina que a contribuição na graça deve ser um ato voluntário, levando em conta a boa vontade do doador, que deva fazê-lo com alegria e por amor, visando prioritariamente o bem estar do irmão mais necessitado (2Corintios 9 : 7 – 12).

Não encontramos no Novo Testamento a menor referência que ensine que a contribuição na graça seja para edificar templos ou manter seus clérigos. Todos os versos que falam sobre a contribuição, apontam para o exercício da piedade que é a prática do amor fraternal em obediência aos mandamentos que o Senhor legou à Sua igreja. Amor esse que se constituía na doutrina que à igreja era repassada pelos apóstolos. "E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações." (Atos 2 : 42).

A CONTRIBUIÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA

A partir do momento em que a igreja do Senhor foi consolidada como está registrado no livro de Atos dos Apóstolos, vemos que os crentes que a formava, eram ensinados pelos seus líderes a repartir do que tinham com os que não tinham. No início da igreja as arrecadações eram administradas pelos apóstolos. Todos os que tinham o desejo de contribuir com a obra de Deus, tendo suas propriedades as vendiam e levavam o produto da venda aos pés dos apóstolos. Mas convém dizer que a obra de Deus eram as vidas humanas e o destino dessas contribuições eram os mais necessitados. "Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha." (Atos 4. 34 , 35). Dessa forma, a igreja vivenciava o que o Senhor havia ensinado que era a prática do amor a Deus e ao próximo. “E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.” (Atos 2 . 44 , 45).

Mas, com o crescimento da igreja, os problemas foram aparecendo. E o primeiro problema foi a acepção de pessoas condenada na bíblia. A distribuição de mantimentos que eram adquiridos pelas contribuições da igreja, deveriam ser distribuídos de maneira igual com todos os que tinham necessidade. Mas, os crentes judeus passaram a priorizar o atendimento ao seu próprio povo e passaram a desprezar os gentios, no caso as viúvas gregas. Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano” (Atos 6 . 1). A partir desse problema, surgiu a necessidade de se constituir na igreja o ministério diaconal. Os apóstolos então entraram num consenso que não deviam abandonar a responsabilidade de ensinar a Palavra de Deus para servirem as mesas. Servir as mesas era repartir o mantimento com o produto das arrecadações da igreja, com os necessitados. Assim, eles delegam à igreja a responsabilidade de escolher do meio dela, sete homens qualificados para que fossem constituídos sobre este importante negócio.Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio” (Atos 6 . 3). Os diáconos então passaram a administrar os recursos arrecadados pela igreja, enquanto os líderes (apóstolos) dedicavam-se ao ministério da oração e da palavra (Atos 6 . 4). Muito se fala atualmente em voltar ao modelo da igreja primitiva. Mas nenhum líder quer abrir mão da administração das finanças, como os apóstolos fizeram. E os diáconos nas igrejas possuem apenas os títulos eclesiásticos, mas não o ministério diaconal.

A igreja em seu início vivia na prática o maior mandamento que Jesus nos deixou e isso agradava sobremaneira o coração de Deus. A igreja praticava de fato o primeiro amor, de sorte que, agindo assim, ela caia na graça do povo e Deus acrescentava todos os dias a ela, aqueles que deveriam ser salvos (Atos 2 . 47). É bem certo que naquele tempo o templo ainda estava em pé e muitos crentes que eram judeus ainda o frequentavam conforme o seu costume. “E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração” (Atos 2. 46). Atente o leitor que crentes gentios não entravam no templo, visto a lei dos judeus não o permitir para que aquele lugar não fosse profanado (Atos 24 . 6). Por isso, a comunhão do corpo de Cristo no partir do pão era feita nas casas dos irmãos, onde todos tinham a liberdade de servir ao Senhor com alegria e singeleza de coração. Porém, enfatizo: as contribuições da igreja não eram para a manutenção do templo que ainda existia, pois para isso, havia uma oferta específica na Lei para esse fim, que deveria ser obedecida pelos judeus enquanto o templo existisse (2Reis 12 . 4). Creio que os crentes judeus a obedeciam, no entanto quanto a contribuição levantada pela igreja, estas eram levadas aos pés dos apóstolos que as repartiam segundo as necessidades de cada um (Atos 4 . 3 4 -  37).

É certo que o Espírito Santo avisou que nos últimos dias, homens avarentos e gananciosos considerariam essa piedade como fonte de lucro e tirariam proveito disso, como atualmente se vê (1Timóteo 6 . 3 – 5).

A COLETA(CONTRIBUIÇÃO)DAS IGREJAS GENTIAS NA MACEDÔNIA E ACAIA

Depois do evento ocorrido em Atos dos Apóstolos que foi registrado por Lucas, vamos encontrar o apóstolo dos gentios tratando sobre esse assunto em suas cartas. Ao escrever aos crentes de Roma, Paulo manifesta o desejo de ir vê-los quando partisse para a Espanha (Romanos 15 . 24). Porém, Paulo vê como prioridade ir a Jerusalém a fim de ministrar aos irmãos, isto porque, os crentes gentios da Macedônia e da Acaia haviam achado por bem levantar uma coleta para ajudar os irmãos pobres de Jerusalém (Romanos 15 . 25 , 26). A decisão de Paulo a ir a estes lugares foi relatado por Lucas em Atos 19 . 21: “E, cumpridas estas coisas, Paulo propôs, em espírito, ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e pela Acaia, dizendo: Depois que houver estado ali, importa-me ver também Roma”.

Jerusalém, lugar onde a Igreja do Senhor nasceu passava por uma grande crise econômica e financeira. Muitos irmãos da igreja em Jerusalém estavam passando por grandes necessidades e as igrejas gentias o na Macedônia (Filipos, Tessalônica e Beréia) e na Acaia (Corinto) propuseram levantar uma contribuição e enviar a Jerusalém a fim de suprir a necessidade daqueles irmãos. A atitude das igrejas gentias em relação a igreja em Jerusalém era um sentimento de fraternidade e de gratidão a Deus, pelo fato de haverem alcançado a salvação que havia saído dos judeus (João 4 . 22). Paulo é enfático em relação ao objetivo daquela contribuição, quando diz que era para os pobres e não para outra causa. “Porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém. Isto lhes pareceu bem, como devedores que são para com eles. Porque, se os gentios foram participantes dos seus bens espirituais, devem também ministrar-lhes os temporais.” (Romanos 15 . 26 , 27). Paulo deixou claro aos crentes de Roma que só poderia ir vê-los depois que ele mesmo fosse a Jerusalém administrar a contribuição aos irmãos (Romanos 15 . 28).

A COLETA (CONTRIBUIÇÃO) DOS CRENTES CORÍNTIOS (ACAIA).

Nas duas cartas que escreveu aos crentes de Corinto, Paulo ensina claramente sobre a virtude de contribuir com a obra do Senhor. Mas, o que seria a obra do Senhor no contexto neotestamentário? Vamos entender lendo com cuidado as cartas paulinas.

NA PRIMEIRA CARTA AOS CORINTIOS

No último capítulo da primeira carta aos Coríntios, Paulo fala sobre a coleta que se deve fazer aos santos, que no caso, eram os pobres de Jerusalém, como vimos acima. Lendo cuidadosamente a primeira carta aos Coríntios, observamos que o capítulo 16 inicia no último verso do capítulo 15 que diz: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Corintios 15 . 58). Com certeza, houve um equívoco daqueles que dividiram as escrituras, pois sabemos que as escrituras sagradas num todo, não foi escrita em capítulos e versículos. Essa divisão foi feita posteriormente para ajudar na leitura da mesma. Quem dividiu a bíblia em capítulos foi o clérigo inglês Stephen Langton no início do século 13 EC. Tempos depois se tornou arcebispo de Cantuária. Ele fez isso, quando era professor na Universidade de Paris, na França. Cerca de 300 anos depois, na metade do século 16, o renomado impressor e erudito francês, Robert Estienne, tornou as coisas ainda mais fáceis ao dividir os capítulos em versículos numerados. Assim, podemos constatar que alguns versos ficaram de fora do contexto de determinados assuntos tratados na bíblia, como as cartas paulinas. Por isso que o capítulo 16 de primeira Coríntios, onde Paulo fala sobre a coleta para os santos tem seu inicio  no verso 58 do capítulo 15, visto ele tratar no capítulo 16 da obra de Deus. Confira Romanos 14 . 15 a 20, onde Paulo demonstra um cuidado com a vida humana como sendo a verdadeira a obra de Deus.

Falando sobre este assunto tão importante para a igreja, que é a contribuição para a obra do Senhor, Paulo deixa entendido que as coletas ou contribuições, não eram recolhidas a cada culto, como se faz atualmente em todas as igrejas, inclusive a católica romana. Há pastores que dizem nas igrejas (já ouvi isso): “culto que não se colhe dízimos e ofertas, não é culto completo”. Mas aqui Paulo ordena que as contribuições devessem ser recolhidas no primeiro dia da semana, onde cada crente deveria por de parte o que pudesse ajuntar, e de conformidade com sua prosperidade, para que não se fizessem as coletas quando ele chegasse (1Corintios 16 . 2). E estas coletas não eram feitas durante o culto. Paulo foi pessoalmente a Macedônia receber essa bênção, para enviá-la a Jerusalém. Essa contribuição ele confiaria a homens honestos, quais a igreja de Corinto deveria avalia-los e aprova-los a fim de levar essa graça até Jerusalém. “Então, quando estiver entre vós, enviarei com carta de recomendação os homens que aprovardes para levarem a vossa contribuição para Jerusalém” (1Corintios 16 . 3 KJA). Observe que no tocante a administração dos recursos dos irmãos, Paulo delegava à Igreja, coluna e apoio da verdade, o direito de escolher os homens certos para cuidarem dessa benção, assim como os apóstolos responsabilizaram a igreja na escolha dos diáconos. Infelizmente, na atualidade a igreja não tem essa voz. Pelo contrário, ela sequer pode questionar a aplicação dos recursos arrecadados. Os poucos que ainda ousam fazer são considerados rebeldes e alguns até são excluídos das instituições.

NA SEGUNDA CARTA AOS CORÍNTIOS

Nesta carta, Paulo continua tratando do mesmo assunto e chega a ocupar dois capítulos inteiros (8 e 9). É certo que muitos crentes e até teólogos tentam associar os escritos de Paulo ao ato de ofertar e dizimar, querendo levar o povo a crer nessa doutrina. Vamos ver se isso procede.

No capítulo 8, Paulo traz novamente a lembrança o que os macedônios fizeram. “Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus dada às igrejas da Macedônia” (2Corintios 8 . 1). Do verso primeiro ao quinto, Paulo elogia o trabalho dos macedônios que mesmo sendo pobres, doaram-se a Deus e aos irmãos, com alegria e riqueza de generosidade. E mais uma vez deixa bem claro que essas coletas não eram para outros fins, senão para o auxilio dos santos. “Porquanto posso dar testemunho de que contribuíram de livre vontade na medida de seus bens, e até mesmo acima disso! Pois nos solicitaram com muita insistência, o privilégio de participar da assistência em favor dos Santos” (2Corintios 8 . 3 , 4 KJA). Diferente das igrejas da Macedônia que eram pobres, as igrejas da Acaia eram ricas e prósperas. As igrejas da Macedônia, inclusive, chegaram até a suprir a necessidade de Paulo, para ele não ser pesado aos coríntios.  “Porque os irmãos que vieram da Macedônia supriram a minha necessidade; e em tudo me guardei de vos ser pesado, e ainda me guardarei” (2Corintios 11 . 9). E quando esteve preso, recebeu ajuda da igreja em Filipos (Filipenses 4 . 15).

A partir do verso seis até o vinte e quatro, Paulo dá exortações e aconselhamentos aos coríntios, mencionando a Tito, seu cooperador que foi quem ele enviou aquela igreja, a fim de ajudá-la no ministério de arrecadação de recursos. “De tal maneira que pedimos a Tito que, assim como já havia começado, semelhantemente completasse essa expressão de graça da vossa parte... Agradecemos a Deus por ter colocado no coração de Tito a mesma dedicação por vós; pois Tito não apenas aceitou a nossa solicitação, mas já partiu para vos visitar, com muito entusiasmo e por iniciativa própria” (2Corintios 8 . 6 ; 16 , 17).

Neste capítulo, Paulo ensina claramente que a contribuição deva ser motivada pelo amor ao próximo e por prontidão de vontade, isto é, com disposição de servir a Deus na pessoa do semelhante (versos 7 a 10).No entanto essa contribuição não deva ser de forma irresponsável, onde o crente possa se sacrificar como algumas igrejas ensinam. “Agora, porém, completai também o já começado, para que, assim como houve a prontidão de vontade, haja também o cumprimento, segundo o que tendes. Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem” (2Corintios 8 . 11 , 12). É bem certo que os macedônios deram além do que tinham, mas isso foi um ato voluntário da parte deles e que Paulo usou como exemplo para motivar os coríntios a exercerem o mesmo sentimento de amor e piedade. Mas aos crentes coríntios Paulo aconselha-os a contribuir de conformidade com o que eles têm e não com o que não tem, mostrando que a contribuição na igreja deve ser para atender um principio de igualdade entre os irmãos. “Mas, não digo isto para que os outros tenham alívio, e vós opressão, Mas para igualdade; neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para que também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade; como está escrito: O que muito colheu não teve de mais; e o que pouco, não teve de menos.” (2Corintios 8 . 13 , 15).

Ao falar sobre o principio de igualdade, Paulo faz referência ao episódio que aconteceu no deserto quando Deus enviou o maná pela primeira vez. Deus havia ordenado os hebreus a colherem diariamente a medida de um ômer por cabeça, para que todos igualmente fossem alimentados. Mas uns hebreus gananciosos colheram além da medida, enquanto que outros colheram de menos. Porém, quando o maná foi medido com o ômer, àquele que recolheu de mais não lhe sobrou e àquele que recolheu de menos não lhe faltou (Êxodo 16 . 15 – 18). Com isso, Deus mostrou que "Dois pesos diferentes e duas espécies de medida são abominação ao SENHOR, tanto um como outro." (Provérbios 20 . 10). Deus deseja a igualdade no meio do seu povo e a contribuição na igreja deva seguir esse princípio divino. Mas esta igualdade não é vista nas igrejas, pois apenas uns poucos são beneficiados em detrimento do sacrifício de muitos. E vale lembrar que esses que atualmente são beneficiados pela contribuição da igreja moderna não são os pobres e necessitados, pois até esses são explorados no pouco que tem.

No restante dos versos que é do 16 ao 24, Paulo mais uma vez demonstra um cuidado com aqueles que administrariam essa contribuição, ou seja, com aqueles que levariam a contribuição ao seu destino. Como vimos, Tito foi um deles por ser honesto, desprendido de avareza e de extrema confiança de Paulo. “Evitando isto, que alguém nos vitupere por esta abundância, que por nós é ministrada;Pois zelamos do que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens” (2Corintios 8 . 20 , 21). Hoje, alguns até evitam prestar contas à igreja daquilo que ela mesma contribui.

A LEI DA SEMEADURA

“E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará” (2Corintios 9 . 6).


Muitos utilizam esse texto que fala da lei da semeadura, de forma isolada e distorcida, como maneira de levar os crentes a semearem em “terrenos estranhos”, como: contas de igrejas ou de seus fundadores; programas radiofônicos e/ou televisivos; edificação e manutenções de prédios (templos) e até para pagar viagens de pastores à terra de Israel. Mas não foi esse o ensino de Paulo às igrejas. O principio da semeadura para uma boa colheita é semear no terreno certo que é a vida do irmão necessitado. Esta é a verdadeira obra de Deus. Quem sabe Paulo se utilizou do ensino de Salomão que também falou sobre esse principio no antigo pacto: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra”. (Eclesiastes 11 . 1 , 2). Muitos são ensinados a contribuir nas instituições, objetivando um retorno imediato. Mas, o retorno será “depois de muitos dias”, como diz as escrituras ou no tempo que Deus achar conveniente. Quem semeia segundo o ensino dos homens, não pense que receberá alguma coisa de Deus.
 
Dos versos 7 ao 14 desta epístola, constatamos a grande verdade que a contribuição levantada pela igreja, em momento algum foi para algum tipo de obra humana e sua manutenção. Era exclusivamente destinada a atender a necessidade dos pobres, como diz: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra; Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; A sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, também vos dê pão para comer, e multiplique a vossa sementeira, e aumente os frutos da vossa justiça;” (2Corintios 9 : 7 – 10). Ao dizer: “Conforme está escrito”, Paulo fez uso do Salmo 112 que mostra as qualidades do homem que teme a Deus e pratica a justiça, dispondo de seus bens para ajudar o necessitado e sendo por isso abençoado grandemente por Deus com sua família.

Mas alguém pode perguntar: Como vamos manter os templos com suas despesas? Jesus não mandou a sua igreja construir templos, pois este foi um costume do judaísmo. E quanto ao sustento do obreiro na nova aliança? O sustento do obreiro segue um principio, no qual já escrevi sobre ele. Acesse aqui:
http://crentefeliz.blogspot.com/2015/10/digno-e-obreiro-de-seu-salario-mas-qual.html

Finalizo afirmando que a contribuição nada tem a ver com dízimos e ofertas. Porém, assim como o dízimo na lei era um principio de Justiça, Misericórdia e Fé, principalmente em favor da causa dos necessitados (Mateus 23 . 23); assim é também a contribuição. Na igreja primitiva homens íntegros, honestos eram escolhidos para administrarem a contribuição da igreja no seu objetivo. Mas e hoje?

"Fiz-me acaso vosso inimigo, dizendo a verdade?" (Gálatas 4 : 16).

Em Cristo,

Reginaldo Barbosa
Santa Bárbara do Pará
                                                                                                                                                
Fontes: Bíblia Sagrada Almeida Corrigida Fiel ao texto original (ACF)
                Bíblia King James Atualizada.