Páginas

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Era o templo de Salomão a habitação de Deus?


"O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso?"  (Atos 7 : 49)

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas o número de novos ministérios denominacionais conhecido como igrejas tem multiplicado grandemente. Não obstante, também tem havido uma grande evasão de crentes das mais variadas denominações religiosas, os quais são por estas chamados de “desigrejados”. Uns tem saído dessas igrejas pelos mais variados motivos, sendo o principal deles a decepção com as lideranças, enquanto que outros são meramente excluídos, por representarem ameaça a essas instituições, em virtude do conhecimento adquirido das Escrituras. Contudo, esse fenômeno chamado “desigrejado” tem de certa forma, contribuído para o entendimento que é possível servir a Deus e manter a comunhão sem a necessidade de se estar afiliada a alguma organização religiosa. E isso também tem servido para quebrar o mito de que os inúmeros templos levantados por essas denominações sejam “casas de Deus”. Neste artigo estarei mostrando que o grande Deus, criador do universo e de tudo o que nele existe, nunca desejou ficar confinado a um espaço físico construído pelas mãos dos homens. Lugares estes chamados de templos que são mistificados por aquele que os edificam como “casa de Deus”.

COSTUMES CANANEUS ADOTADOS PELOS ISRAELITAS

A ideia de construir uma casa para Deus surgiu primeiro no coração de Jacó quando fez um voto ao Senhor (Gênesis 28.22). Porque Jacó prometeu isso, se ele não conhecia ainda o Deus de seus pais Abraão e Isaque e muito menos havia noticia de algum santuário feito para Deus? É simples! Jacó residia nas terras de Canaã e que era habitada por povos que cultuavam falsos deuses, feitos pelas mãos dos homens. E Jacó, mesmo sendo escolhido por Deus, não se desvencilhou tão cedo desse costume pagão, onde até mesmo sua família, sob a influência do paganismo cananeu, servia a deuses estranhos (Gênesis 35.2-4). Para o povo cananeu era comum construírem templos para seus deuses, onde também lhes ofereciam sacrifícios. Muito tempo depois, o desejo de construir uma casa para surgiu no coração do grande monarca de Israel, quando percebeu que ele habitava numa linda casa de cedro importado, enquanto a arca do Senhor habitava em tendas (1Crônicas 17.1). Mas teria o grande Deus pedido que seu povo construísse uma habitação para Ele?

Quando o Senhor tirou o seu povo Israel do Egito para introduzi-los em Canaã, deu a seguinte ordem: "E não andeis nos costumes das nações que eu expulso de diante de vós, porque fizeram todas estas coisas; portanto fui enfadado deles." (Levítico 20.23). Muito embora o Senhor tivesse feito tal pedido, vemos que Ele não foi obedecido. Ao tomar posse da terra prometida, depois da morte de Josué, o povo de Israel acabou por andar nos costumes cananeus, seguindo a outros deuses que o Senhor havia terminantemente proibido e por isso sofreu a reprovação de Deus por muitos anos até o cativeiro babilônico, onde foram curados da idolatria. Mas, dois dos vários costumes cananeus prevaleceram em Israel, como veremos a seguir, muito embora fosse contrária a vontade de Deus.

GOVERNO MONÁRQUICO, UM COSTUME CANANEU.

O primeiro costume cananeu invejado pelos israelitas foi o sistema de governo monárquico com a escolha de um rei. Todos os povos de Canaã possuíam um rei, assim como em cada cidade hoje há um prefeito. Diferente de outras nações, Israel não tinha rei, pois Deus era o soberano sobre seu povo. Mas Israel invejou os cananeus e desejou também ter um rei. “E disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações” (1Samuel 8.5). É claro que a má administração dos filhos de Samuel a frente do povo, contribuiu para o surgimento desse desejo. Mas Samuel não se agradou da ideia e consultou a Deus. No entanto, Ele atendeu o desejo do coração do povo, como diz: “E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1Samuel 8.7). Assim, o costume cananeu de ter um rei que dominasse sobre o povo foi introduzido no meio do povo escolhido de Israel.

TEMPLOS RELIGIOSOS ERAM COSTUMES DOS CANANEUS

O segundo costume que prevaleceu em Israel e que também tem tido grande influência entre os cristãos, foi a construção de templos. As escrituras claramente mostram que Deus nunca desejou habitar em templos feitos pelas mãos dos homens. Pela boca do profeta Isaias, o Senhor assim falou: "Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso?"  (Isaías 66.1). Essa foi a mesma palavra citada por Estevão em sua defesa e que causou a indignação dos religiosos e que resultou na sua morte por apedrejamento (Atos 7.48-60). Mas, se Deus nunca desejou isso, o que dizer da construção do templo por Salomão e que foi o marco na vida do povo judeu como o único local de adoração?

DEUS NÃO PEDIU A CONSTRUÇÃO DESSE TEMPLO

Como foi dito acima, o desejo de construir um templo para Deus surgiu no coração de Daví. Quando Daví propôs fazer uma casa para Deus, recebeu de imediato a aprovação do seu profeta e conselheiro Natã. “Disse o rei ao profeta Natã: Eis que eu moro em casa de cedro, e a arca de Deus mora dentro de cortinas. E disse Natã ao rei: Vai, e faze tudo quanto está no teu coração; porque o SENHOR é contigo” (2Samuel 7.2,3). Natã como profeta não teve o cuidado de consultar ao Senhor e, para agradar ao rei Daví, logo apoiou sua ideia e até disse que Deus seria com ele. Mas, na mesma noite o Senhor fala com Natã expressando a sua real vontade. “Porém sucedeu naquela mesma noite, que a palavra do SENHOR veio a Natã, dizendo: Vai, e dize a meu servo Davi: Assim diz o SENHOR: Edificar-me-ás tu uma casa para minha habitação? Porque em casa nenhuma habitei desde o dia em que fiz subir os filhos de Israel do Egito até ao dia de hoje; mas andei em tenda e em tabernáculo” (2Samuel 7.4-6). Pelos textos, vê-se claramente que Deus não desejou isso. O Senhor ainda diz para Natã que Daví não construiria uma casa para Ele, mas sim, um de seus descendentes. Qual seria esse descendente? Será que o Senhor estaria se referindo a Salomão que substituiria Daví no trono de Isarel? Daví, como homem pensou que sim (1Crônicas 28.15), e também o próprio Salomão achou que era ele (2Crônicas 6.8,9). Mas, se analisarmos cuidadosamente o texto de 2Samuel 7.12-17, vamos entender que o Senhor não estava falando de Salomão como o descendente de Daví que lhe edificaria uma casa.

“12 Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino.
13 Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre.
14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens.
15 Mas a minha benignidade não se apartará dele; como a tirei de Saul, a quem tirei de diante de ti.
16 Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre.
17 Conforme a todas estas palavras, e conforme a toda esta visão, assim falou Natã a Davi.” (2Samuel 7.12-17 ACF).

Observem que em nenhum momento o onisciente Deus falou que o descendente de Daví que lhe edificaria casa seria seu filho Salomão. No verso 13 o Senhor promete confirmar o trono desse descendente para sempre. Ora, todos sabem que Salomão no apogeu de seu reino pecou desobedecendo a Deus, se unindo a mulheres pagãs e se entregou a idolatria provocando a ira do Senhor. Em sua indignação, Deus promete rasgar o seu reino, como diz: “Assim disse o SENHOR a Salomão: Pois que houve isto em ti, que não guardaste a minha aliança e os meus estatutos que te mandei, certamente rasgarei de ti este reino, e o darei a teu servo” (1Reis 11.11 ACF). Por causa do pecado de Salomão que transgrediu contra o Senhor, o reino de Israel foi dividido em duas tribos (Norte e Sul). Logo, Salomão não poderia ser o descendente pelo qual Deus prometeu a Daví que seria o que lhe edificaria uma habitação, cujo reino seria eterno.

CRISTO, O DESCENDENTE DE DAVI E NÃO SALOMÃO

Quando lemos a genealogia de Cristo, vemos que este veio da linhagem de Davi, passando por Salomão “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão... E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias. E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa... De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a Babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a Babilônia até Cristo, catorze gerações” (Mateus 1.1;6,7;17). Assim, a promessa de Deus a Daví dizia respeito a Jesus e não a Salomão. Eis a razão pela qual Jesus era reconhecido entre os pobres, necessitados e até estrangeiros como o “Filho de Daví” (Mateus 9.27;12.23;15.22).

A IMPORTANCIA DO TEMPLO DE SALOMÃO.

Deus não pediu a construção desse templo para a sua habitação, no entanto Ele consentiu sua construção e até aceitou que seu Nome alí habitasse por um motivo especial, como segue:

O segundo livro das Crônicas nos mostra Salomão terminando e consagrando essa casa para Deus. Ao finalizar as obras de seu palácio e do templo, Salomão leva para este o ouro, a prata e os objetos de valor que Daví seu pai havia consagrado para aquela casa. Depois ele convoca os anciãos e os líderes tribais para conduzirem a arca do concerto até o lugar para ela preparada no templo. Uma grande festa acontece, onde um número incontável de bois e carneiros é sacrificado (2Crônicas 5.1-6).  Salomão faz um discurso e lembra ao povo o desejo de seu pai Daví em construir aquele templo e o motivo da não permissão de Deus, citando as Palavras que Natã, da parte de Deus entregou a Daví que disse que a descendência dele é que lhe faria uma habitação (2Crônicas 6.1-9). Salomão então sobe a plataforma que fez e ora a Deus. Na sua oração, Salomão diz algo interessante, que nos faz entender o motivo de Deus aceitar aquele templo como local de adoração. Leiamos uma parte dessa oração em 2Crônicas 7-18-21:

“Mas, na verdade, habitará Deus com os homens na terra? Eis que os céus, e o céu dos céus, não te podem conter, quanto menos esta casa que tenho edificado? Atende, pois, à oração do teu servo, e à sua súplica, ó SENHOR meu Deus; para ouvires o clamor, e a oração, que o teu servo faz perante ti.  Que os teus olhos estejam dia e noite abertos sobre este lugar, de que disseste que ali porias o teu nome; para ouvires a oração que o teu servo orar neste lugar.  Ouve, pois, as súplicas do teu servo, e do teu povo Israel, que fizerem neste lugar; e ouve tu do lugar da tua habitação, desde os céus; ouve pois, e perdoa”.

A oração de Salomão continua no restante do capítulo sete, e por várias vezes, ele menciona os céus como o lugar da habitação de Deus e não aquele templo. Mas é somente quando Salomão termina a oração é que Deus manda a sua glória em forma de fogo que consumiu os holocaustos e encheu a casa de modo que nem mesmo os sacerdotes puderam alí entrar (2Crônicas 7.1,2).

Passado esse dia, a noite o Senhor aparece a Salomão e lhe fala o motivo de ter aceito aquela casa que lhe foi consagrada. “E o SENHOR apareceu de noite a Salomão, e disse-lhe: Ouvi a tua oração, e escolhi para mim este lugar para casa de sacrifício” (2Crônicas 7.12). Sim, aquela casa seria uma casa de sacrifícios, pois, somente mediante esses holocaustos é que o povo recebia a expiação de seus pecados. Por essa razão que o Senhor falou assim: “E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra. Agora estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos à oração deste lugar” (2Crônicas 7.14,15). Assim, todo povo de Deus (hebreus) precisava ir aquele lugar levar seus sacrifícios, orar e suplicar o favor de Deus. E isso durou até a vinda do Messias. Por isso, no cumprimento da Lei, Jesus demonstrou zelo por esta casa ao expulsar os cambistas que por permissão dos sacerdotes profanavam aquele lugar, transformando-o em casa de negócios. Nesta oportunidade Jesus mostrou que Ele era o verdadeiro templo da habitação de Deus, mas os religiosos não compreenderam o ensinamento de Jesus, como muitos até hoje não compreendem. (João 2.19-21). E por esta razão, os religiosos continuam construindo templos e os chamando de casa de Deus, sendo que Deus não habita nesses lugares (Atos 7.48 ; 17.24). O único templo aprovado por Deus foi o de Salomão, mas com a condição de Salomão e o povo permanecerem fiel a Lei de Moisés, caso contrário, o Senhor lhes arrancaria daquela terra, os lançaria fora de Sua presença e faria daquela casa um objeto de zombaria para todos os povos (2Crônicas 7.12-22)

CONCLUSÃO

O templo erguido por Salomão não foi a casa da habitação de Deus, conforme foi prometida a Daví. Deus não habitou naquela casa, apenas se fazia presente e respondia as orações, quando invocado naquele lugar, visto ele estar edificado em Jerusalém, cidade que Deus escolheu para fazer habitar o Seu Nome.  (Deuteronômio 12.11). E como vimos, aquele templo era uma casa de sacrifícios. Mas na instituição da Nova Aliança por Cristo, que cumpriu todas as exigências da lei, como sacrifícios, holocaustos e oblações, o templo perdeu sua utilidade. Por isto, Jesus predisse que dele não ficaria desta casa pedra sobre pedra que não fosse derribada (Mateus 24.2). E isso aconteceu no ano 70 dC, e desde então nenhum outro mais foi erguido. Se Deus de fato habitasse alí, jamais permitiria que ele fosse profanado ou destruído.

No próximo artigo, falarei da Casa de Deus levantada pelo descendente de Daví – Jesus.
Em cristo,

Reginaldo Barbosa
Santa Bárbara do Pará

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A trágica morte de Coré, Datã, Abirão e os 250 líderes de Israel


"E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens." (Números 16 : 32).

INTRODUÇÃO

Muitos ensinam assim nas igrejas
A maneira como Coré, Datã e Abirão morreram é conhecida por todos os crentes. A terra se abriu e engoliu vivos esses homens com suas famílias e tudo o que lhes pertenciam. Esta tragédia sem igual na história do povo de Deus tem sido largamente usada no meio cristão como uma maneira de impor medo e, de certa forma terror nos crentes, com o intuito de estes não questionarem a atitude de alguns ministros que se autoproclamam “ungidos”. Isto porque, acreditam e ensinam que o motivo da morte desses homens com suas famílias, se deu pelo motivo de estes se oporem a liderança de Moisés e Arão. Teria de fato sido este o verdadeiro motivo pelo qual a ira de Deus veio de forma excepcional sobre estes homens exterminando-os com tudo o que tinham? O que ensina a bíblia?

QUEM ERA CORÉ

Coré, com o apoio de Datã e Abirão liderou um grupo de duzentos e cinquenta homens em oposição a liderança de Moisés e Arão. Coré era levita, do clã de Coate, um dos três filhos de Levi (Gênesis 46.11 ; Números 3.17). Os “coatitas” como eram assim chamados, eram os responsáveis pelas coisas santíssimas do santuário (Números 4.4). Como levita, Coré era ministro no santuário auxiliando os sacerdotes nos serviços do santuário. Sendo da tribo de Levi, Coré deveria auxiliar o sacerdote e isto deveria ser para ele uma honra, pois Deus escolheu os levitas para sí em lugar de todos os primogênitos em Israel. "E eu, eis que tenho tomado os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo o primogênito, que abre a madre, entre os filhos de Israel; e os levitas serão meus." (Números 3.12). Mas Coré tinha desejo de poder e de dominar sobre o povo, assim como agem os nicolaítas na igreja atualmente. Isso foi a sua ruína e de seus companheiros.

O MOTIVO DA INSSURREIÇÃO DE CORÉ E SEU BANDO

É inegável que Coré e seus aliados tenham de fato se levantado contra a liderança de Moisés e Arão. Porém, não foi essa a única razão pela qual a ira de Deus se derramou contra aqueles homens matando-os de forma incomum, como veremos mais a frente. Coré que era o líder do grupo ambicionava a posição de sacerdote em Israel. Pelo tempo em que passaram no Egito, Coré aprendeu que ser sacerdote era promissor, pois naquela terra, os sacerdotes gozavam de prestígios políticos, sendo protegidos pelo faraó e também eram proprietários de grandes áreas de terra, o que lhes proporcionava grandes riquezas (Gênesis 47.22-26). O que Coré, não sabia é que em Israel, o papel dos sacerdotes seria totalmente diferente. No meio do povo de Deus o sacerdote deveria servir e não ser servido. Somente depois da tragédia que lhe custou a vida é que Deus determinou em Lei que os sacerdotes levitas não teriam nenhum tipo de beneficio material. "Disse também o SENHOR a Arão: Na sua terra herança nenhuma terás, e no meio deles, nenhuma parte terás; eu sou a tua parte e a tua herança no meio dos filhos de Israel."  (Números 18.20). Assim, Coré ambicionou o sacerdócio, intentando obter vantagens e prestigio como acontecia entre os sacerdotes no Egito. Ele não levou em consideração que a escolha de Moisés como líder e Arão seu irmão como sacerdote em Israel partiu do próprio Deus. Moisés e Arão não foram escolhidos por um conclave, um concílio ou eleição convencional. Por isso, murmurar contra esses homens, era o mesmo que murmurar contra o próprio Deus que os escolheu (Êxodo 16.7).

A ATITUDE DE MOISÉS.

Ao perceber a maléfica intenção de Coré, Moisés prostrou-se na presença de Deus, como sempre costumava fazer quando murmuravam contra ele (Números 16.4). Certamente orientado por Deus que sempre falava com ele, Moisés propôs a Coré e sua congregação aliada apresentarem-se perante Deus portando cada um incensários. Esta seria a maneira de Deus mostrar aqueles homens insubordinados quem era o escolhido de Deus (Números 16.6,7). Como um autentico líder, que se preocupa com seus liderados, Moisés não deixa de advertir Coré, sabendo do mal que ele estava atraindo para sí, sua família  e seus companheiros.

“Disse mais Moisés a Coré: Ouvi agora, filhos de Levi: Porventura pouco para vós é que o Deus de Israel vos tenha separado da congregação de Israel, para vos fazer chegar a si, e administrar o ministério do tabernáculo do SENHOR e estar perante a congregação para ministrar-lhe; E te fez chegar, e todos os teus irmãos, os filhos de Levi, contigo? ainda também procurais o sacerdócio?” (Números 16.8-10).

Ao desejar o sacerdócio, Coré estava de fato se levantando contra e Arão e também contra o Senhor, e não propriamente contra Moisés, o líder do povo de Israel. “Assim tu e todo o teu grupo estais contra o SENHOR; e Arão, quem é ele, que murmureis contra ele?” (Números 16.11). Arão como sacerdote ungido era o único que podia mediar as causas dos homens para com Deus, queimando incenso e oferecendo oblações e holocaustos sobre o altar. O sacerdote era o mesmo que príncipe no arraial dos santos. Qualquer falta de respeito contra o sacerdote, era uma afronta ao próprio Deus. "A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás." (Êxodo 22.28). Porém, conforme a ordem de Deus, somente Arão e posteriormente os seus descendentes diretos é que poderiam assumir o sacerdócio em Israel. “E vestirás a Arão as vestes santas, e o ungirás, e o santificarás, para que me administre o sacerdócio. Também farás chegar a seus filhos, e lhes vestirás as túnicas, E os ungirás como ungiste a seu pai, para que me administrem o sacerdócio, e a sua unção lhes será por sacerdócio perpétuo nas suas gerações” (Êxodo 40.13-15). Nenhum outro, embora fosse levita, mas não sendo da família de Arão poderia ser sacerdote. Por isso repito, levantar-se contra o sacerdote da linhagem de Arão, era o mesmo que opor-se a soberania de Deus.

De igual modo, assim como admoestou Coré, Moisés mandou chamar Datã e Abirão a sua presença para também aconselhá-los, mas estes não quiseram vir. E ainda protestaram contra Moisés, acusando-o de querer se fazer príncipe sobre eles (Números 16.13,14). Isto causou o furor de Moisés que orou ao Senhor pedindo que não recebesse a oferta de suas mãos (Números 16.15).

A MORTE DE CORÉ E SEU GRUPO.

Sabendo que não poderia mudar a opinião daqueles homens, Moisés pede para que eles se apresentem a porta do santuário trazendo incensários com incensos. Eles assim o fizeram. “Tomaram, pois, cada um o seu incensário, e neles puseram fogo, e neles deitaram incenso, e se puseram perante a porta da tenda da congregação com Moisés e Arão” (Números 16.18). Imediatamente a ira de Deus se manifestou e o Senhor disse a Moisés. “Apartai-vos do meio desta congregação, e os consumirei num momento” (Números 16.21). É importante frisar que não apenas Coré e seu grupo seriam exterminados, mas toda a congregação israelita. Isto mostra a gravidade dos fatos. Porém, Moisés e Arão humilharam-se diante da face de Deus e intercederam em favor da congregação de Israel. O Senhor então mandou que Moisés pedisse ao povo que se afastassem de perto da tenda de Coré, Datã e Abirão. Assim Moisés e Arão fizeram em obediência a Deus. Moisés então salientou que o que iria acontecer com aquelas famílias era um sinal que eles haviam irritado o Senhor (Números 16.28-30). Então, terra se abriu e vivos desceram ao abismo Coré, Datã, Abirão e tudo o que lhes pertencia. Em seguida, saiu fogo do altar e consumiu os duzentos e cinquentas homens de posição que se aliaram com Coré (Números 16.35).

O MOTIVO DA TRAGÉDIA

Se Coré e seu bando apenas tivessem questionado somente a liderança de Moisés e Arão, certamente eles sofreriam algum tipo de penalidade, como maneira de reparar seu erro. Talvez até morressem por alguma praga como aconteceu com alguns que também se rebelaram um dia após essa tragédia (Números 16.41-50). Talvez até mesmo fossem perdoados mediante a intercessão de Moisés que era homem mui manso e por muitas vezes pediu pelo povo. “Perdoa, pois, a iniqüidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia; e como também perdoaste a este povo desde a terra do Egito até aqui. E disse o SENHOR: Conforme à tua palavra lhe perdoei” (Números 14.19,20). Mas este não foi o caso de Coré e seu bando. Eles foram mais além e irritaram o Senhor. Mas de que maneira eles irritaram o Senhor? Queimando incenso sem serem santificados ou consagrados para este fim. Apenas o sacerdote descendente de Arão deveria queimar incenso ao Senhor. Quem não fosse da família de Arão morreria por essa ousadia. "Mas a Arão e a seus filhos ordenarás que guardem o seu sacerdócio, e o estranho que se chegar morrerá."  (Números 3.10).
É bom lembrar que da mesma maneira procedeu também Uzias, rei de Judá, muito tempo mais tarde, quando se exaltou em seu coração, transgredindo contra o Senhor ao queimar incenso, não sendo ele sacerdote e nem descendente de Arão.

“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso. Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, e com ele oitenta sacerdotes do SENHOR, homens valentes.  E resistiram ao rei Uzias, e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso; sai do santuário, porque transgrediste; e não será isto para honra tua da parte do SENHOR Deus.  Então Uzias se indignou; e tinha o incensário na sua mão para queimar incenso. Indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu à testa perante os sacerdotes, na casa do SENHOR, junto ao altar do incenso” (2Crônicas 26.16-19).

E a recompensa do rei Uzias, foi vexatória adquirindo a pior enfermidade do seu tempo que era a lepra. E assim morreu o ungido rei de Judá.

CONCLUSÃO

Como vimos, Coré, Datã e Abirão não morreram por questionar a autoridade de Moisés e Arão, como tem sido ensinado. Ressalto que eles morreram de maneira excepcional por irritarem ao Senhor, queimando incenso, o que não lhes era permitido fazer, pois somente Arão e seus filhos foram ungidos para esse fim. Não é demais advertir que aqueles que utilizam esse fato ocorrido com Coré, Datã e Abirão, com o fim de se blindarem e não terem suas ações questionadas pelos fiéis; estes é que estão irritando a Deus, por deturparem Sua Palavra, ensinando o que não convém. Graças a Deus que vivemos o tempo da graça, senão muitos já teriam sido extirpados. Mas é conveniente lembrar que o julgamento começará pela casa de Deus que é a igreja (1Pedro 4.17); principalmente aos que ocupam a posição de mestres entre o povo do Senhor (Tiago 3.1). E também, no atual tempo da graça, inaugurada pelo sangue do Cordeiro de Deus, não existem sacerdotes ungidos e muito menos homens com autoridade para dominar sobre o rebanho de Deus (igreja), como foram Moisés e Arão sobre Israel. Todos nós, os que cremos, somos sacerdotes juntos com Cristo, nosso sumo sacerdote. E como sacerdotes, todos podemos queimar incenso a Deus, pois o incenso são as nossas orações (Apocalipse 5.8).

Em Cristo,

Reginaldo Barbosa
Santa Bárbara do Pará.        
                                                                                                                                      

Fontes: Bíblia Sagrada Almeida Corrigida Fiel (ACF)